O CEMITÉRIO E A ARTE DAS BRUXAS

Algumas vezes, precisamos ver a morte para nos lembrarmos de nossa pequeneza. Basta uma rápida caminhada por entre covas para relembrarmos de nosso futuro iminente. Vez ou outra, vejo as crianças felizes correndo, uma visão do que seria o paraíso para aqueles que agora estão em sono profundo. Num lugar como esse pessoas “normais” veem a morte em tudo, mas observando com atenção, logo se nota que os pais de três crianças pedem para elas que respeitem os mortos, quase que como um pedido para que façam o mesmo no futuro por eles. As crianças, por sua vez, brincam nas árvores e correm por entre os túmulos, mas nenhuma delas vê a morte ou um espírito ali, logo voltam a brincar normalmente.
Quero que entenda que todos vivemos em mundo diferentes caro peregrino. O mundo em que você vive é diferente do meu, e cada um desses mundos é único, pois apesar de encontrarmos pessoas com ideias e personalidades muito semelhantes, não quer dizer que seremos assim para sempre. Todos somos seres psíquicos e todos temos capacidade de nos conectarmos a diferentes mundos, em maior ou menor escala, não há segredo. Porém certos mundos e formas de ver o nosso mundo só são acessíveis em certas condições, o que torna isso um mistério, afinal não há uma receita geral, mas a experiência pessoal aliada à prática e o desejo. 
Quando caminho pelo Prado dos Mortos vejo um mundo de potenciais, um reino de poderes e fraquezas, um universo completo de transformações e revoluções. Entre lágrimas e risos, entre nascimentos e mortes, o apodrecer e a frutificação, um mundo de eterna transiência se encontra, por isso se diz que tudo o que a morte toca vira poder.
Nesse terreno onde a natureza, o tempo e a morte se unem podemos contemplar não só as lápides, mas a nós mesmos. Os cemitérios são tão cheios quanto as cidades e tal como nós os mortos também possuem seus próprios costumes e sua própria sociedade. Certa vez um espírito me disse que somos nós os vivos que estamos mortos, pois desperdiçamos a vida em relações abusivas, em empregos medíocres e levamos a vida muitas vezes sem rumo. Se soubessemos que a morte não espera nada, se soubessemos a importância disso viveriamos tudo livremente, sem medo e sem nenhuma vergonha.

“Somente a idéia da morte dá ao homem o desapego suficiente para ser capaz de não render-se a nada. Um homem assim sabe que sua morte o está perseguindo e que não lhe dará tempo para agarrar-se a nada. Então ele experimenta, sem ânsias, tudo de tudo.” ~Carlos Castaneda

Em nossa sociedade o homem comum, como os pais das crianças, chegam a velhice e se costumam se preprar para a morte, como se nada mais houvesse na vida para viver, quando na verdade ele somente fez tudo o que as pessoas comum fazem. Acreditar que já se viveu tudo é colocar a morte em sua porta, é dizer a si mesmo que você não merece viver.
Nosso mundo é incompreensivel, mas observá-lo poderá lhe dar chaves preciosas para cantos ocultos de sua alma. Se você observar verdadeiramente, você irá aprender que devemos receber o mundo como ele é: um mistério. E bem, somos todos loucos vivendo um mundo de mistérios – ou nos jogamos nessa enorme aventura, ou nos dispomos na lista de espera da morte.
Aprender sobre os mortos é aprender sobre uma vida mais digna, pois uma vez que nos dispomos a respeitar ao invés de temer nos colocamos numa situação de aprendizado e de poder. Os covardes jamais terão a menor vista que seja da importância e do quão longo é o processo da morte em nossas sociedades.

Porém quero que entendam buscadores, quando nos dispomos aos mortos eles nos veem também e é aí que somos testados, será que somos tão selvagens e ferozes ao ponto de sermos capazes de compreender e controlar os espíritos imemoriais e sem forma que rondam as noites frias? Independente de sua resposta ser sim ou não lembre-se que antes do medo deve vir o respeito. É como cutucar o leão com a vara curta. Muitas vezes o problema não é o espírito, mas nossas atitudes.

A vida é maravilhosa, ela é completa e suficiente, é nosso maior bem, nossa maior jornada e nosso maior desafio em nossa existência cósmica, da mesma forma a morte é simplesmente o desatar do fio que o Destino atou no exato momento de nosso nascimento. 
Mme. Leonora

A MARCA DAS BRUXAS

Em nosso bosque há diversos seres e espíritos, continuamente trabalhamos com eles de modo que eles possam, através de nós, manifestar a Arte que transcende qualquer tempo e espaço. Acreditamos que o tempo todo, a nosso volta, eles nos dão sinais para nos guiar através da noite escura. Esses sinais muitas vezes acabam formando outros, os quais chamamos de sigilos, símbolos construídos para fazer algo que necessitamos. 

Dos mais antigos símbolos de nossa irmandade está este símbolo chamado de Pé das Bruxas, sobre o qual um grande mistério jaz, um mistério amplo que não serei totalmente capaz de comunicar, pois certas coisas devem ser vividas para se compreender. Este simbolo fala sobre as Nossa Rainha,  parecido com a pegada de uma coruja ou ganso, dois animais relacionados a ela, o pé das bruxas nos lembra de nossa condição animal, humana e espiritual, a trindade das bruxas. Além disso representa o Reino Celestial, o Reino Inferior, e os quatro reinos, que são as quatro direções com os quatro vigias (norte, sul, leste, oeste).
Nas alturas, no caminho das estrelas que chamamos de Via Láctea, está o Reino Celestial, onde habitam os espíritos mais elevados, como os deuses e nossos ancestrais cujas jornadas no mundo material foram terminadas. Nas profundezas temos o Reino Inferior, onde habitam os espíritos do mortos em geral, e é composto de muitas partes, nele há locais com grandes pastos, mas também há locais com tormento e sombras. é comum chamarmos o Reino dos Espíritos de Elfame, elf (elfo) + home (casa), casa dos elfos. Os elfos nada mais são do que espíritos nas terras do hemisfério norte, há de fato uma grande confusão hoje em dia classificando elfos como seres de orelhas pontudas que vivem junto com as fadas, mas veja bem, elfo possui a mesma raiz de ‘alvo’, sinonimo de cândido, branco, que nos remete a velha visão do mundo antigo de espíritos iluminados com um tom branco, tal como em filmes, desenhos e séries do mundo moderno. 

Se estendendo ao nosso redor se encontram as quatro direções, norte, sul, leste e oeste, cada qual representando uma estação, inverno – verão, primavera – outono, mas não só isso, representam os aspectos da vida humana, como a juventude, a vida adulta, a velhice e a morte, ou então podem ainda representar o nascer do sol, o meio dia, o por do sol e a meia noite. Muitas são os mistérios que os vigias guardam, e como gostamos de dizer, há sempre um ano em um dia. Pois dentro de um dia vemos todos os eventos que são causados da passagem do sol ao longo do ano.

Mme. Leonora
Alguns trechos deste texto foram retirados “LIBER UMBRAE” – um grimório de bruxaria de Michael Nefer.