A MARCA DAS BRUXAS

Em nosso bosque há diversos seres e espíritos, continuamente trabalhamos com eles de modo que eles possam, através de nós, manifestar a Arte que transcende qualquer tempo e espaço. Acreditamos que o tempo todo, a nosso volta, eles nos dão sinais para nos guiar através da noite escura. Esses sinais muitas vezes acabam formando outros, os quais chamamos de sigilos, símbolos construídos para fazer algo que necessitamos. 

Dos mais antigos símbolos de nossa irmandade está este símbolo chamado de Pé das Bruxas, sobre o qual um grande mistério jaz, um mistério amplo que não serei totalmente capaz de comunicar, pois certas coisas devem ser vividas para se compreender. Este simbolo fala sobre as Nossa Rainha,  parecido com a pegada de uma coruja ou ganso, dois animais relacionados a ela, o pé das bruxas nos lembra de nossa condição animal, humana e espiritual, a trindade das bruxas. Além disso representa o Reino Celestial, o Reino Inferior, e os quatro reinos, que são as quatro direções com os quatro vigias (norte, sul, leste, oeste).
Nas alturas, no caminho das estrelas que chamamos de Via Láctea, está o Reino Celestial, onde habitam os espíritos mais elevados, como os deuses e nossos ancestrais cujas jornadas no mundo material foram terminadas. Nas profundezas temos o Reino Inferior, onde habitam os espíritos do mortos em geral, e é composto de muitas partes, nele há locais com grandes pastos, mas também há locais com tormento e sombras. é comum chamarmos o Reino dos Espíritos de Elfame, elf (elfo) + home (casa), casa dos elfos. Os elfos nada mais são do que espíritos nas terras do hemisfério norte, há de fato uma grande confusão hoje em dia classificando elfos como seres de orelhas pontudas que vivem junto com as fadas, mas veja bem, elfo possui a mesma raiz de ‘alvo’, sinonimo de cândido, branco, que nos remete a velha visão do mundo antigo de espíritos iluminados com um tom branco, tal como em filmes, desenhos e séries do mundo moderno. 

Se estendendo ao nosso redor se encontram as quatro direções, norte, sul, leste e oeste, cada qual representando uma estação, inverno – verão, primavera – outono, mas não só isso, representam os aspectos da vida humana, como a juventude, a vida adulta, a velhice e a morte, ou então podem ainda representar o nascer do sol, o meio dia, o por do sol e a meia noite. Muitas são os mistérios que os vigias guardam, e como gostamos de dizer, há sempre um ano em um dia. Pois dentro de um dia vemos todos os eventos que são causados da passagem do sol ao longo do ano.

Mme. Leonora
Alguns trechos deste texto foram retirados “LIBER UMBRAE” – um grimório de bruxaria de Michael Nefer.

A PONTE QUE ATA OS MUNDOS

Como diziamos no blog anterior, a bruxa perpicaz deve, com o tempo e instrução, através de seu dom, ver além do que está a sua frente. O poder que a bruxa tem é um poder que não está somente nas palavras, nem nos atos, feitiços, rituais, que ela faz… esse poder está no que há entre todas as coisas.

É possível acessá-lo e utilizá-lo de acordo com a vontade de cada um, mas sempre é cobrado um preço por cada ato – pois tudo o que tomamos como nosso nossa Rainha pode um dia tirar pela pura vontade dela. Esse poder inominável que flui incessante da fonte espirítual é quem liga os muitos mundos com o axis de nossos corações e torna possível todas as coisas. Nele os profundos reinos dos mortos se ligam ao reino dos ancestrais e dos deuses honrados. O axis é o primeiro poder a ser reverenciado em sua altura e profundidade, sem ele nenhum mundo existiria. Esse poder pode ser exemplificado na forma física como o santuário secreto que é seu coração. Nele todas coisas são ligadas e sem ele nenhuma outra existiria, o coração se liga a mente para abrir as portas secretas da realidade.

Um caminho é só um caminho, e não há desrespeito a si ou aos outros em abandoná-lo, se é isto que o coração nos diz…examinhe cada caminho com muito cuidado e deliberação. Tente-o muitas vezes, tanto quanto julgar necessário. Só então pergunte a você mesmo, sozinho, uma coisa… este caminho tem coração? Se tem, o caminho é bom, se não tem, ele não lhe serve. Um caminho é só um caminho.

Carlos Castãneda

Isso tudo, caro peregrino, quer dizer que você não pode ser o que você não é. Você não pode ser você sem você mesmo. Tudo começa no coração. O coração é quem ouve primeiro o sussurro do chamado dos deuses antigos e é através dele que vamos para o prado de nosso deus sábio. Se você não conhece nada além de quem você é físicamente, então comece a olhar honestamente para sua realidade interior e se perguntar: o que eu sou? Muitas vezes essa resposta é algo que somente o Tempo poderá lhe dar.

As realidades ocultas ao nosso redor, quando o coração está desperto, são facilmente acessadas através de movimentos de expansão e contração alternando estados mentais. O coração pode parecer o guia mais irracional que você já conheceu, as vezes nos colocando em situações contrárias aos nossos interesses, mas ele, como centro de nosso insconsciente, é a beleza e o Poder de tudo isso. Não é barato lidar com ele, mas sem dúvida ele é quem com fé se submete ao caminho tortuoso dos deuses antigos.

“Coloque seus pensamentos para dormir, não deixe-nos lançar uma sombra sobre a Lua de seu coração. Pare de pensar.” 

Rumi

O coração se estende através dos caminhos do Sol e da Lua e, através de sentidos físcos e espirituais, desse modo, todo ser humano vive entre duas realidades naturalmente. O caminho do Sol, que é o caminho da consciência, rege tudo o que podemos pensar enquanto acordados, esse caminho se alia ao caminho da Lua, que comporta em si tudo aquilo que é inconsciente, e por consequente irracional. Seguir um ou o outro não é a questão, mas sim, descobrir o que há entre eles, dentro deles e para além deles. Quando você tem uma intuição, você está tocando o caminho do coração, Lunar, irracional, mas muitas vezes verdeiro. Quando você sente ansiedade, você está o caminho do Sol, está literamente sofrendo de “excesso de consciência” e sofre de inverdades que sua mente diz para si mesmo. Seu foco é a chave para alternar estes e muitos outros estados de ser.

Nós que aqui deste lado da fronteira dos mundos temos muito a aprender ouvindo a batida de nossos corações e o silêncio que há entre elas, pois no canto do grilo e na canção da cigarra há segredos guardados esperando pelo observador. Um de nossos muitos deuses é patrono da agricultura. Sua função não é somente mover as águas, ventos, proteger a fauna e flora, mas também nos recordar que vivemos num jardim de ilusões, pois somos naturalmente selvagens, livres e desempedidos para ir além da cerca que nos rodeia. É obvío que cada coração deve ser nutrido com água pura, as ervas-daninhas devem ser tratadas, muitas vezes eliminadas, nossos caules devem ser podados e devemos cuidar de nossa própria floração, porém, devemos recordar também que o excesso, nesse caso de cuidado, deve ser pensado com parcimônia, uma vez que nossa essência transcede o próprio jardim e vai para além, sempre para frente.

Madame Leonora