Quase todas as fábulas e mitos retratam a bruxa como uma habitante de locais como florestas, bosques, ilhas, ou locais inóspitos como o deserto ou o gelo, não importa, a bruxa sempre vive próximo do mundo selvagem, ou melhor, vive no mundo como ele de fato é. Viver em cidades era um privilégio para os nobres ou comerciantes livres, aqueles tinham negócios com o reino. Aos pobres, os oprimidos e marginalizados, sobrava as áreas rurais pois essas pessoas dependiam do campo para viver. 


Com o fenômeno da urbanização do Brasil cada vez mais essas pessoas foram empurradas para os limites das cidades, famosos por sua insegurança e marginalidade. Marginalizada, assim como muitos são hoje em dia, as bruxas nasciam no limiar que separa a fazenda da floresta, o mundo civilizado e o mundo selvagem. Eram nos bosques e florestas em que nasceram ou viviam que comungavam com cada ser vivendo ali: plantas, árvores, animais, espíritos. Em locais especiais, onde o poder natural flui, ela comungava com os deuses de sua crença. 

A vida é aprendizado. Guarde bem isto com você caro peregrino. A Vida é aprender e crescer. Para isso seguimos nossas vidas cruzando fronteiras que parecem impossíveis e complicadíssimas para serem vencidas. Porém, uma vez que você tenha atravessado a fronteira, se dará conta da verdade, e finalmente perceberá que todos aquelas complicações eram somente provas a serem vivenciadas. Toda vez que você for além da sua zona de conforto, você estará um passo mais perto da deusa. Toda vez que cruzar a fronteira que define um novo e desconhecido rumo, estará no reino onde Nossa Mãe e Rainha habita.


A fronteira, ou limiar, é este espaço que delimita o mundo conhecido e domesticado do desconhecido e selvagem. Seja a soleira da porta que divide o mundo interior do mundo exterior, ou mesmo o limiar gerado pelas nossas decisões que agem como a espada que divide todas as coisas, o limiar é o ponto em que as coisas mudam, é um estado de eterna transformação, é a encruzilhada entre os mundos. Poucos são capazes de permanecer neste limiar, alguns se sentem inseguros, outros tem medo do desconhecido, mas a grande verdade é que uma bruxa ou bruxo poderoso assim o é por ter sido capaz de desafiar a si mesmo em ordem de destruir suas ilusões e expectativas.
Não sei quem sou, que alma tenho.

Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).

Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.

Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.

Como o panteísta se sente árvore e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada , por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço. 

Fernando Pessoa


Mme. Leonora