A PONTE QUE ATA OS MUNDOS

Como diziamos no blog anterior, a bruxa perpicaz deve, com o tempo e instrução, através de seu dom, ver além do que está a sua frente. O poder que a bruxa tem é um poder que não está somente nas palavras, nem nos atos, feitiços, rituais, que ela faz… esse poder está no que há entre todas as coisas.

É possível acessá-lo e utilizá-lo de acordo com a vontade de cada um, mas sempre é cobrado um preço por cada ato – pois tudo o que tomamos como nosso nossa Rainha pode um dia tirar pela pura vontade dela. Esse poder inominável que flui incessante da fonte espirítual é quem liga os muitos mundos com o axis de nossos corações e torna possível todas as coisas. Nele os profundos reinos dos mortos se ligam ao reino dos ancestrais e dos deuses honrados. O axis é o primeiro poder a ser reverenciado em sua altura e profundidade, sem ele nenhum mundo existiria. Esse poder pode ser exemplificado na forma física como o santuário secreto que é seu coração. Nele todas coisas são ligadas e sem ele nenhuma outra existiria, o coração se liga a mente para abrir as portas secretas da realidade.

Um caminho é só um caminho, e não há desrespeito a si ou aos outros em abandoná-lo, se é isto que o coração nos diz…examinhe cada caminho com muito cuidado e deliberação. Tente-o muitas vezes, tanto quanto julgar necessário. Só então pergunte a você mesmo, sozinho, uma coisa… este caminho tem coração? Se tem, o caminho é bom, se não tem, ele não lhe serve. Um caminho é só um caminho.

Carlos Castãneda

Isso tudo, caro peregrino, quer dizer que você não pode ser o que você não é. Você não pode ser você sem você mesmo. Tudo começa no coração. O coração é quem ouve primeiro o sussurro do chamado dos deuses antigos e é através dele que vamos para o prado de nosso deus sábio. Se você não conhece nada além de quem você é físicamente, então comece a olhar honestamente para sua realidade interior e se perguntar: o que eu sou? Muitas vezes essa resposta é algo que somente o Tempo poderá lhe dar.

As realidades ocultas ao nosso redor, quando o coração está desperto, são facilmente acessadas através de movimentos de expansão e contração alternando estados mentais. O coração pode parecer o guia mais irracional que você já conheceu, as vezes nos colocando em situações contrárias aos nossos interesses, mas ele, como centro de nosso insconsciente, é a beleza e o Poder de tudo isso. Não é barato lidar com ele, mas sem dúvida ele é quem com fé se submete ao caminho tortuoso dos deuses antigos.

“Coloque seus pensamentos para dormir, não deixe-nos lançar uma sombra sobre a Lua de seu coração. Pare de pensar.” 

Rumi

O coração se estende através dos caminhos do Sol e da Lua e, através de sentidos físcos e espirituais, desse modo, todo ser humano vive entre duas realidades naturalmente. O caminho do Sol, que é o caminho da consciência, rege tudo o que podemos pensar enquanto acordados, esse caminho se alia ao caminho da Lua, que comporta em si tudo aquilo que é inconsciente, e por consequente irracional. Seguir um ou o outro não é a questão, mas sim, descobrir o que há entre eles, dentro deles e para além deles. Quando você tem uma intuição, você está tocando o caminho do coração, Lunar, irracional, mas muitas vezes verdeiro. Quando você sente ansiedade, você está o caminho do Sol, está literamente sofrendo de “excesso de consciência” e sofre de inverdades que sua mente diz para si mesmo. Seu foco é a chave para alternar estes e muitos outros estados de ser.

Nós que aqui deste lado da fronteira dos mundos temos muito a aprender ouvindo a batida de nossos corações e o silêncio que há entre elas, pois no canto do grilo e na canção da cigarra há segredos guardados esperando pelo observador. Um de nossos muitos deuses é patrono da agricultura. Sua função não é somente mover as águas, ventos, proteger a fauna e flora, mas também nos recordar que vivemos num jardim de ilusões, pois somos naturalmente selvagens, livres e desempedidos para ir além da cerca que nos rodeia. É obvío que cada coração deve ser nutrido com água pura, as ervas-daninhas devem ser tratadas, muitas vezes eliminadas, nossos caules devem ser podados e devemos cuidar de nossa própria floração, porém, devemos recordar também que o excesso, nesse caso de cuidado, deve ser pensado com parcimônia, uma vez que nossa essência transcede o próprio jardim e vai para além, sempre para frente.

Madame Leonora