A figura da bruxa européia, que vai ao sabá e voa em vassouras, nos foi introduzida por Portugal como atesta o folclorista e historiador Luís Câmara Cascudo, começamos então por Portugal.
A cultura de Portugal foi composta por diversas outras culturas anteriores, sendo as principais o catolicismo, o islamismo e as práticas fetichistas da África. Portugal era aberta ao mar, recebia diversos povos e possui-a uma religiosidade híbrida. Adicionando-se a predominância do caráter rural os portugueses eram muito mais afeitos ao misticismo e a religiosidade pagã do que ao catolicismo.

No século V os suevos, que habitavam parte da região onde seria Portugal, aderiram ao catolicismo como religião oficial através de São Martinho de Dúmio. Um dos motivos que se deve tal acontecimento é que o Priscilianismo, uma forma de culto católico (nesta época ser católico e pagão ao mesmo tempo era comum) que era a continuação dos cultos pagãos e que disseminava-se até mesmo nos mosteiros da galícia: Conquistando massas sempre mais numerosas, e onde as mulheres exerciam um papel preponderante, a síntese teológica de Prisciliano, reinterpretada nas camadas populares, tinha reencontrado e feito renascer a veneração religiosa dos astros, bem como o desenvolvimento da adivinhação do tempo, hoje chamada de meteorologia.
Assim a igreja começou seu esforço de apagar estas crenças e impor o cristianismo aos povos rurais, onde era maior o número de adeptos dos cultos pagãos. O povo teve sua identidade e cultura negadas, de modo que se tornaram ‘ninguém’: suas culturas foram simplesmente apagadas, rejeitadas nas trevas e chamadas de maléficas; e assim os cultos antigos tornavam-se a “porção maldita” da sociedade.
Apesar de seus esforços, como a implantação de catequese e da demonização dos antigos cultos, a Igreja falhou. As crenças do povo continuaram a se manifestar através do sincretismo ou mesmo se camuflando através de formas populares do catolicismo, como as romarias, e principalmente nos santos. Muitos dos deuses do passado foram ‘santificados’ pela igreja, e assim mais uma vez a igreja atraiu o povo para seus recintos de medo e culpa.
A igreja, apesar de suas tentativas de impor a ortodoxia, acabou por permitir a mistura dos cultos e religiões primitivas com o catolicismo, formando assim uma nova religiosidade popular, que foi importada ao Brasil.
Segundo historiador Novinsky, “O Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, em Portugal, foi introduzido exclusivamente para fiscalizar e punir os descendentes de judeus que haviam sido convertidos à força ao catolicismo, e sob suspeita de praticar a religião judaica. Foi gradativa a ampliação de seus objetivos até abarcar diversos tipos de comportamento e crenças. Às heresias em matéria de fé juntaram-se feitiçarias, bruxarias, sodomia, bigamia, blasfêmias, proposições, desacatos e problemas diversos de sexualidade”.
É mister recordar que desde o século VI apesar das proibições, os escravos de vários bairros de Lisboa reuniam-se para bailar e cantar “a seus modos”. De acordo com J. P. Paiva, o número dos curandeiros era tão importante em Portugal que não existia uma freguesia, por pequena que fosse, que não tivesse o seu. A sua área de ação era habitualmente limitada a esta, exceto quando a sua fama extravasava os limites geográficos iniciais, pois havia naquelas épocas curandeiros de grandiosa fama.

Religiosidade Popular no Brasil Colonial
A religiosidade brasileira era definida na época colonial como “práticas das classes populares”, tidas, até o começo do século XIX como tudo o que era supersticioso, vulgar, marginal ou grosseiro, por fim a religiosidade popular era tudo aquilo que aqueles que viviam na periferia da sociedade acreditavam, tidas como as distorções da fé católica ortodoxa. Se você notar bem, em todo conto de fadas, as bruxas vivem ou viveram em áreas rurais, por vezes em locais onde nem mesmo autoridades iriam.
Diferente da Igreja, os povos mais pobres nunca tiveram hierarquias em seus cultos, eles não praticavam doutrinas, não sabiam ler, eles só viviam o sagrado em suas vidas e o transmitiam oralmente. Os deuses e os santos eram vivos, por vezes até humanizados, trazendo uma relação muito mais íntima com o sagrado.
Em o Trópico dos Pecados, do escritor Ronaldo Vainfas, é relatado que no Brasil os portugueses praticavam pecados sem punição da Igreja. Aqui não existia a fé cristã nem mesmo os dez mandamentos. “Era a carne com todos os seus desejos que comandava o Brasil”. Para colonizar o Brasil, Portugal, utilizou os jesuítas da Ordem de Cristo, como um braço do Estado, eles seriam os agentes da formatação cultural.
Portugal não tinha por costume matar os hereges, a maioria era degredada para a África ou para o Brasil. Nesta lista estão bruxas, prostitutas, hereges, curandeiros, escravos, judeus e muitos outros. Assim, os católicos acreditavam que a tradição católica do matrimônio e da família estavam se tornando tradições distorcidas. A ideia inicial é que a igreja esperava que esses pecadores poderiam formar famílias e se voltar para Igreja, o que obviamente não acontecia, o Brasil tornava-se o Reino do Exílio, ou mesmo o Purgatório terreno. Porém com tamanha liberdade essas pessoas continuaram suas práticas pecaminosas, proibidas em suas terras natais cristianizadas. Os jesuítas, preocupados com a perda de terreno, solicitaram ao rei que enviasse “pessoas de bem” para assim formar uma sociedade menos pecaminosa, ou seja, que agradasse a Igreja.
Colonizado na Idade Moderna, tendo início de fato com a chegada do governador geral Tomé de Souza em 1549 à Salvador, o Brasil recebeu dos galicianos a herança de um mundo místico. É talvez difícil acreditar, embora seja um fato incontestável, que um país como o Brasil, cujo nome é praticamente sinônimo de modernidade, e cujos habitantes vêem quase que exclusivamente o futuro, foi em seu começo uma verdadeira Terra de Santos e de milagres. Realmente, as fontes primárias (e não unicamente a hagiografia) registram o que a portugueses e índios contemporâneos lhes pareceram aparições de santos, inclusive a Virgem Maria, no contexto de uma intensa experiência mística que caracteriza aqueles primeiros tempos […] Santos protetores eram invocados (como o seguem sendo) contra todos os tipos de enfermidades ou perigos, ou para obter um remédio para muitos problemas pessoais, como o das donzelas que procuravam maridos.

O Brasil Colonial foi marcado por interpretações muito livres da teologia, em muitos casos, livres até mesmo de padres para acompanhar as massas. A religiosidade no período colonial se dava em muitos casos na forma de cultos locais que misturavam aspectos das culturas indígenas e negras com as crendices dos brancos, formando rituais diversos e que davam uma nova tônica ao catolicismo português que já era bastante híbrido.
As práticas mágicas eram escondidas e reprimidas na época colonial, algumas estão vivas até hoje em nosso folclore, escondidas numa roupagem cristã. Nesta época colonial Cristo tinha perdido grande parte de sua importância para dar lugar ao catolicismo dos santos: a oração dá lugar às fórmulas mágicas, os problemas cotidianos roubaram o esforço da salvação da alma. Desenvolvia-se um catolicismo extraoficial, de caráter pragmático, popular e tributário de superstições tomadas à outras religiões.
Semelhante às práticas das bruxas italianas, como exposto por Charles Leland em seu famoso livro, “O Evangelho das Bruxas”, os santos, cada um com sua “especialidade”, tornaram-se os companheiros de jornada de muitas bruxas, auxiliando ou impedindo projetos e sendo por consequência “recompensados” pelos fiéis com festas, pagamentos de promessas e procissões, ou então “punidos”, seja com blasfêmias, ou com “castigos” nas imagens. Esse tipo de ato está amplamente espalhado em hábitos de diversos povos, demonstrando uma profunda ligação da bruxaria com a anarquia, pois o poder da bruxa provém dela e de suas ações, não de um deus ou deusa, ela é soberana de si mesma.
Casos de Bruxaria no Brasil
O Brasil teve algumas bruxas investigadas, a primeira de nossa lista é Maria Perpétua de Calafate Souza, ou como ficou conhecida, a Bruxa de Ilhabela. Maria Perpétua foi uma comerciante de Ilhabela, litoral de São Paulo, que foi acusada de bruxaria após uma denúncia feita contra ela na igreja local. A escrava de um capitão conhecido como Domingos adoeceu após uma briga com Maria Perpétua, que na época havia jurado vingança. Quando sua casa foi inspecionada foram encontrados vários itens de magia como ossos, cabelos, uma orelha seca e seu grimório. Não foi levada a julgamento, pois seu marido matou a com facadas após descobrir que ela mantinha um caso com o capitão Domingos.
Outra vítima da injustiça contra as bruxas foi Maria da Conceição, que era conhecida como uma mulher versada na arte das ervas e medicamentos. Após um desentendimento com um padre, ela foi acusada de bruxaria e levada a julgamento e considerada culpada. Morreu queimada na fogueira em 1798 em São Paulo.
Mima Renard também teve o mesmo fim que Maria da Conceição. Mima era uma imigrante francesa de beleza ímpar, ela e seu marido, René, foram morar em São Paulo, onde ela rapidamente ganhou muitos pretendentes. Aconteceu que um desses apaixonados pretendentes acabou por matar seu marido. Sem o marido, Mima teve de se prostituir para sobreviver. As prostitutas por sua vez passaram a acusá-la de enfeitiçar os homens com o propósito de atraí-los. Após um conflito entre dois de seus clientes, que resultou na morte de um deles, Mima foi acusada pelas mulheres de seus clientes por bruxaria. Foi julgada e condenada à morte na fogueira.
Michael Nefer
