Certa vez Gisela, uma buscadora que havia nascido no vilarejo próximo de meu bosque e que havia se mudado há alguns anos para a cidade grande, me procurou pedindo ajuda, pois se sentia aflita por algo que não sabia descrever e se sentia desconectada de sua terra. Ela sempre fora uma mulher extraordinária, forte e corajosa, mas naquele dia senti que ela buscava um refujo em minhas palavras. Ela, que fora treinada na Arte mágica das Bruxas, havia se distanciado de suas práticas espirituais desde sua saída do bosque e agora sonhava em voltar para casa e assim fazer tudo voltar a ser como antes.
Tal como ela, muitos buscam a Arte das Bruxas em todos os cantos de nossa casa, a Terra. Uns terão a sorte de nascer em meio a amigos que partilham das crenças semelhantes, outros serão enviados para as grandes cidades onde os homens buscam refúgio de seus medos juntando-se em aglomerados, clamando estarem seguros uns dos outros.
Porém quando você é uma bruxa isso é impensável. Nossas almas clamam pela clareira nunca tocada por mãos humanas que jaz no coração de nossas Terras tanto quanto clama por uma conexão social com outros seres. Mesmo na paisagem urbana sempre há locais onde você pode explorar as fontes naturais de poder espiritual para se conectar com os espíritos de sua própria região. Como encontrar essas fontes? Bem, vamos mais devagar, pois é importante que compreenda bem o peso e a medida do que irá fazer.
O primeiro passo para descobrir as forças e poderes que rodeiam sua cidade é visitar locais considerados sagrados e amaldiçoados sempre se atendo a devida proteção. Há um antigo adágio que diz: peça e encontrarás. Se você se ateve ao que foi ensinado antes, você então saberá que o primeiro passo foi se conectar com seus poderes ancestrais, depois você aprendeu a importância de ser uma pessoa digna dos deuses e espíritos através da honestidade para consigo mesmo e para com os deuses. Você então aprendeu que mais vale uma singela vela e uma oração do que um teatro cheio de mentiras contadas ao vento. O próximo passo agora é aprender a pedir, pois nada vem de graça - e todos pagaremos um preço por nossos atos.
Uma vez que saiba bem o que deseja, peça e encontrarás.
Você pode, assim que tiver uma sólida conexão com seus ancestrais, pedir a eles que lhe mostrem para você o caminho em direção ao que você quer. Isso significa que você também vai aceitar e superar (ou não) o que estiver no caminho do que você quer, nesse entremeio entre um ponto e outro, nossa vontade e força são sempre testadas.
Como Gisela se sentia perdida e distante destes poderes eu ensinei a ela que buscasse primeiro pedir aos seus ancestrais que a guiasse para um local de poder, bastava acender uma vela, realizar uma oferenda e pedir. Feito isso ela deveria sair de casa e ir viver sua vida, ficando atenta aos sinais do outro mundo, quase que como situações diferentes da do cotidiano.
No dia que ela fez esse pequeno gesto ela pegou um ônibus para ir ao trabalho e decidiu dessa vez não ler o jornal como sempre fazia, e isso por si só era algo para ela diferente, ela olhou a todos ao redor, buscou ouvir se havia mensagens ocultas sendo enviadas para ela através da fala de estranhos, mas não havia nada. Na volta, ela escolheu dessa vez olhar para fora, algo que não fazia com frequência, mas que sabia bem o caminho.
Porém dessa vez ela notou algo diferente, havia um grande cemitério no caminho, cheio de árvores e ao que parecia bem cuidado. Apressada ela tocou o sinal do ônibus e desceu, caminhou até o cemitério e desceu algumas quadras até encontrar uma grande árvore retorcida, o vento naquela hora se tornou denso e frio, ela sentiu força e poder ali, mas algo tentava dominar aquele local.
Certa de que aquele não era ainda o local ideal, ela deixou uma oferenda e partiu, caminhando até um outro local, ali ela sentiu o ar fluiu gentil e sua oferenda foi recebida com o cair de múltiplas flores na clareira em que estava. E esse era o sinal de que ela era bem-vinda, esse gesto natural permitiu a ela a frequentar aquele local e absorver conhecimento sobre a Terra em que ela vivia.
Seguindo o exemplo de Gisela, qualquer um pode começar a explorar os poderes nativos de sua região através da visitação de locais considerados sagrados e amaldiçoados. Esses locais geralmente possuem uma história ou mito associados que nos permitem extrair pérolas que nos auxiliam na exploração desses depósitos de energia natural. Esses locais podem servir para recarregarmos nossas energias e até para realizarmos grandes atos de magia onde uma enorme quantidade de poder é necessária.
Comece a entender o que acontece em sua região, aprenda os nomes das ruas e suas histórias, descubra o que essa região era antes de ser um bairro, explore paralelamente os mitos, bem como as lendas urbanas e as festividades tradicionais (mesmo que não sejam da sua religião!).
Sua arte deve ser baseada no seu mundo, e não numa crença de um povo distante mesmo que seus ancestrais tenham vindo de outro local, pois a terra em que voce vive já possuí história e poder reconhecidos, respeitá-los é essencial se deseja ser realmente honesto com sua prática e com os espíritos que lhe guiam nas trilhas da feitiçaria.
Ainda assim, lembre-se: nossas almas clamam pelo coração intocado da floresta, anseiam a liberdade que existe para além dos limites do mundo civilizado. Então retire alguns dias para conhecer seu bairro, sua cidade e a terra em que você pisa, mas tire também alguns dias, especialmentes aqueles em que as estações mudam, para ir até a floresta, o bosque, o deserto... onde quer que seja desde que longe da interferência humana. Seja qual for o bioma em que você vive, esse é um convite para que sua alma encontrar uma pequena fração da paz que ela tanto anseia.